Precisamos calcar nossa ação no conhecimento científico, que em sua estruturação necessita de Organização, Objetivo próprio e Metodologia específica. A razão disso advém da própria definição do que se concebe como Ciência: um conjunto organizado de conhecimentos relativos a certas categorias de fatos ou fenômenos.
Toda ciência, para definir-se como tal, deve necessariamente possuir um objetivo próprio, assim como definir suas bases tendo em vista uma metodologia específica. Em decorrência, ela vai distinguir-se do conhecimento vulgar, porque procura pôr ordem nas coisas, classificando-as, e, além disso, tem a preocupação de procurar uma resposta pela análise das leis que as regem. Tendo-se conhecimento das leis naturais, a ciência desempenha duas funções: primeiro, teórica, que nos explica e liberta do imprevisto e ininteligível; e depois, uma função prática, porque permite-nos prever os fenômenos pelo conhecimento das leis.
Ora, a busca pelo ideal de oclusão estável pós-tratamento ortodôntico não deve possuir seu foco limitado apenas ao seu aspecto estático, como assume a definição de modelo ideal aquele expresso nas seis chaves de oclusão de Andrews. Parece ser esta a preocupação da comunidade ortodôntica em geral, sem a consciência ou compromisso de estabelecer um relacionamento íntimo com o complexo aspecto dinâmico, que além dos dentes pressupõe o sistema de suporte ósseo, periodontal, sanguíneo, muscular e articular, tudo coordenado na composição das praxias de oralidade e seus reflexos posturais comandados pelo sistema nervoso central, expressando movimento, energia e ação. Claro, tudo regido por leis biológicas, ou da natureza. A propósito, é oportuno lembrar Juvenal, um poeta da antiguidade romana do primeiro século, que afirmou:
“Nunca a Natureza diz uma coisa, e a Sabedoria diz outra”.
Dizer que oclusão ideal, ou normal (não estabeleço diferença entre os termos, embora há quem faça) é aquela que permite ao sistema estomatognático a realização de todas as funções fisiológicas com preservação da higidez de sua estrutura, é dizer tudo e absolutamente nada ao mesmo tempo, pois não define coisa alguma. Porém, é exatamente isso que avulta nos compêndios de Ortodontia quando a referência é aquilatar o resultado ortodôntico apresentado em fotos em oclusão cêntrica. Isto não diz nada, sendo desnecessário justificar o porquê da afirmação. Esquadrinham-se à saciedade estratégias de ancoragem e movimentações dentárias, características de fios, qualidades e tipos de suportes com suas especificações, evidentemente de grande valor técnico, como se a simples obediência a cada um destes requisitos conferissem um aval de qualidade ao resultado do tratamento em termos de estabilidade e harmonia. Se houver necessidade de contenção, o resultado estará inegavelmente pressupondo desequilíbrio entre a decomposição das forças geradas pela mastigação e as resultantes indesejáveis que vêm a materializar a tão execrável recidiva. RECIDIVA É CONSEQUÊNCIA DE DESEQUILÍBRIO OCLUSAL, e contenção é curvar-se a esta realidade.
É preciso entender que a pretensão de escorar aqueles dentes por um tempo não significa que ficarão obedientes quando se sentirem livres, seja depois de um, dois, quatro ou dez anos. Caso o sistema neuro-ósteo-dento-músculo-articular não tenha se estropiado todo à submissão a esta contenção, o que é improvável, ao cabo de toda esta saga, a recidiva seguramente se manifestará em graus variados.
Os dentes, alvos preferidos da terapia genérica, são apenas parte de uma estrutura, e é oportuno lembrar um axioma de Myron Lieb, que de maneira muito elegante assim se expressou:
“Sem estrutura, não pode haver função”.
“Sem correta estrutura, a função não pode ser correta”.
“Função incorreta pode afetar não apenas uma correta estrutura, mas também afetar seriamente o desenvolvimento das estruturas”.
A melhor maneira de se estabelecer um método, senão o único, para estudar o que vem a ser Equilíbrio do Sistema Estomatognático, é definir um Objetivo, qual seja, evidenciar de maneira insofismável quais são os requisitos de estabilidade oclusal; depois cuidar da Organização dos tópicos de forma a consubstanciar uma Ordem lógica para análise; e por fim estabelecer uma Metodologia específica para tanto, lançando mão do meio adequado, o Articulador semi-ajustável.
Já afirmei que se existe uma especialidade que por obrigação irretorquível de responsabilidade deve conhecer profundamente oclusão é a Ortodontia, e por conseguinte, o método por meio do qual é permitido seu estudo, o articulador semiajustável. É tão óbvia a razão que se torna até constrangedor precisar lembrar que quem movimenta dentes deve fazê-lo com consciência de que está interferindo profundamente no equilíbrio ósteo-dento-músculo-articular. Este equilíbrio é traduzido pela ação harmônica dos constituintes como forma e situação do plano oclusal, trajetórias condilares, dos incisivos, curvas de decolagem e alturas cuspídeas que há anos Thielemann e Hanau traduziram em leis incontestes dentro da ciência odontológica, além da existência real dos ângulos entre as superfícies deslizantes das vertentes dentárias evidenciadas por Beyron e complementadas por Planas nos “ângulos funcionais mastigatórios”. É importante afirmar definitivamente o seguinte: ajuste oclusal, seja em cêntrica ou nos movimentos excêntricos, não podem ser realizados apenas e tão somente com os dentes perfeitamente alinhados e nivelados em oclusão cêntrica. Não faz sentido algum se os demais requisitos não estiverem satisfeitos.
É penoso afirmar, mas, fora deste caminho organizado que consubstancia a Ciência, o panorama é extremamente sombrio e caótico, relegando a especialidade à categoria de frivolidade estética. Engana-se, portanto, o colega que procura facilidades e atalhos na prática ortodôntica, dando ouvidos ao cântico das sereias, pois o que receberá em troca será a moeda de valor aviltado pela massa amorfa de profissionais sem identidade.
Porém, há sim, luz no fim do túnel. O panorama pode ser mudado quando se rompe este paradigma já envelhecido e passa-se a empregar o acervo de conhecimentos da Reabilitação Neuro Oclusal. Quando isso acontece, não apenas o profissional desperta em outro plano de consciência, como também passa a respeitar-se mais quando percebe a importância do que executa, fato percebido pelo paciente que interpreta esta diferenciação como um valor agregado àquilo que recebe e sente prazer em retribuir e divulgar, o que é muito natural.
Até mais



Currículo do
Autor