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“ENFOQUE
TERAPÊUTICO INTEGRADO”
Como
define Pedro Planas, Reabilitação Neuro Oclusal (RNO) é a parte da
medicina estomatológica que se ocupa do estudo da
etiologia e gênese dos desvios morfológicos e funcionais
do sistema estomatognático, tendo por objetivo
investigar as causas que os produzem, eliminá-los tanto
quanto possível e reabilitar ou reverter suas seqüelas
precocemente, se necessário desde o nascimento, com
terapêuticas que não afetem os tecidos do sistema. Nós
afirmamos que RNO é, antes de tudo, um modelo
interpretativo que busca na imersão dos fenômenos
biológicos o substrato para sua construção.Quando a
consciência permite VER e ENTENDER o modelo daquele
sistema estomatognático íntegro, saudável, que exige
para sua materialização a presença e sinergismo de
vários fatores em ações coordenadas, constatamos que
apenas a Ortodontia mostra-se absolutamente incapaz de
satisfazer, o mesmo acontecendo com a Ortopedia
Funcional dos Maxilares.
E
qual é este modelo? Tal como no funcionamento de
qualquer máquina, todo trabalho, ou função, deve ser
exercido de maneira que haja o mínimo dispêndio
energético para executá-lo com baixa entropia (medida da
quantidade de desordem em um sistema). Ora, um sistema é
constituído por partes interativas cujas ações
coordenadas objetivam um fim determinado, e no caso do
sistema estomatognático, entre
outras correlações com os sistemas respiratório,
digestório, postural, a finalidade é mastigar. E
este ato, para ser concretizado funcionalmente, deve
estar de acordo com o projeto articular, ou seja,
bilateralmente. E o equilíbrio para esta bilateralidade
possui exigências claras para sua manifestação, pois não
pode ser aleatória ou caótica. Já dizia Einsten que “God
does not play dice with the Universe” (Deus não joga
dados com o Universo). Este equilíbrio obedece a leis
que assentam que o plano oclusal deste sistema seja
formado em consonância com as trajetórias condilares, ou
seja, uma mínima variação da trajetória condílea provoca
imediata adaptação no plano oclusal, quando dos
movimentos excêntricos, constituindo a primeira Lei de
Hanau. Para a segunda lei, os dentes guardam, com
suas alturas cuspídeas, uma relação mútua com a curva de
decolagem, ou seja, a uma maior altura cuspídea
corresponde uma curva mais ascendente; e a
sobressaliência e sobremordida são conseqüentes às
alturas cuspídeas e trajetórias condilares, constituindo
a terceira lei do equilíbrio oclusal de Hanau, com
todo esse sinergismo sendo regido pelo equilíbrio nos
Ângulos Funcionais Mastigatório Planas. Primeiro para
entender, e depois para respeitar e aplicar, recorre-se
aos registros funcionais analisados no articulador
semi-ajustável, que é o meio adequado para isto. E não
se chega a uma finalização ortodôntica equilibrada, sem
que tais requisitos sejam atingidos. Quando não, as
indefectíveis contenções serão inevitavelmente
necessárias. Este é o preço que se paga para a
diferenciação profissional que irá se traduzir em mais
valor. Quem sabe mais, faz mais. E vale mais. Os
pacientes entenderão perfeitamente.
Os casos clínicos devem
ser finalizados com absoluto respeito a este paradigma
baseado em leis naturais ratificadas pela Reabilitação
Neuro Oclusal, e a este resultado chegamos pelo emprego
do acervo disponível de conhecimentos técnicos que o
permitem, gerando uma síntese terapêutica. O resultado é
a excelência na finalização ortodôntica. Torna-se uma
grife de quem a pratica, sendo impossível imitar
resultados, pois para tê-los, há que atingi-los.
Assentadas estas
premissas, passemos a abordar as características mais
gerais da Ortodontia e Ortopedia Funcional dos
Maxilares.
A moderna
Ortodontia exige que seus especialistas estejam em dia
com seus conhecimentos relativos aos modelos
interpretativos mecanicista e funcionalista, ou seja, da
Ortodontia e Ortopedia Funcional dos Maxilares,
respectivamente, tal como a define o Conselho Federal de
Odontologia, quando testifica:
Resolução do Conselho Federal de Odontologia 22/2001
Art.34.
ORTODONTIA é a especialidade que tem como objetivo a prevenção, a supervisão e a
orientação do desenvolvimento do aparelho mastigatório e a correção das
estruturas dento-faciais, incluindo as condições que requeiram movimentação
dentária, bem como harmonização da face no complexo maxilo-mandibular.
Art.35.
As áreas de competência para a atuação do especialista em Ortodontia incluem:
a)
diagnóstico, prevenção, interceptação e prognóstico das más oclusões e
disfunções neuro-musculares;
b)
planejamento do tratamento e sua execução mediante indicação, aplicação e
controle dos aparelhos mecanoterápicos e funcionais, para obter e manter
relações oclusais normais em harmonia facial, estética e fisiológica com as
estruturas faciais e;
c)
inter-relacionamento com outras especialidades afins necessárias ao tratamento
integral da face.
Ora, é corrente o pensamento de que o propósito, tanto de um modelo
quanto de outro, seja de prestarem-se à tarefa de alinhamento e nivelamento dos
dentes, dispondo-os idealmente segundo angulações, torques, profundidade,
contatos proximais, rotações, chaves e planos oclusais, ou seja, duas técnicas
aparentemente divergentes perseguindo um mesmo objetivo. Possivelmente o
conhecimento fragmentado de um dos modelos, ou de ambos, justifique este ponto
de vista, porém, a análise sucinta que faremos procurará deter-se nas diferenças
e demonstrar que, longe de colocá-los em campos antagônicos, pelo contrário, os
fará convergir, quando então se completam.
Previamente
há que estabelecer parâmetros para estruturar um padrão de comparações e se
chegar às conclusões. O primeiro deles refere-se a definir objetivos de ambos
os modelos: a cura de um desvio no padrão de normalidade funcional de um ser
vivo; o segundo está relacionado à consciência do quê estamos tratando; e o
terceiro, aos mecanismos disponíveis para tanto, ou seja, o tripé de sustentação
para um enfoque terapêutico adequado.
O modelo
mecanicista da Ortodontia está fortemente vinculado à percepção e consciência
dos fenômenos voltados às leis da Física, e tal como acontece com o conteúdo de
um software, o conjunto de princípios e suas ilações restringe o trânsito
apenas dentro de seus limites, e cujo alcance e abrangência o torna
insubstituível em uma área de atuação que exige alta precisão e controle de
forças nas suas ações e reações no sistema alvéolo-dentário.
O modelo
terapêutico empregado na aparatologia fixa eleita em minha filosofia de trabalho
apóia-se em três grandes princípios, todos eles amplamente estruturados em
conceitos solidamente testados e convertidos em protocolos específicos. O
primeiro deles é representado pelo Straight Wire, ou Arco
Reto, cujas fases de tratamento são dispostas em seqüências objetivas, claras e
altamente eficazes. A facilidade com que lida com os diferentes tipos de
ancoragem e com o alinhamento e nivelamentos dentários empregando bráquetes com
quádruplo controle, com angulação, torque, rotação e profundidade embutidos no
corpo, bem como fios de última geração, superelásticos com propriedades
austenítica e martensítica, termo-ativados em vários níveis e de tensão seletiva
em segmentos do arco, torna esta técnica extremamente atraente e útil na
execução de grande número de casos. O seguinte consiste na filosofia e
respectiva Mecânica Bioprogressiva, desenvolvida por Ricketts, que
se constitui, inegavelmente, em um dos mais avançados meios de atuação
terapêutica, tanto na fase de dentição permanente quanto transicional, fato
permitido pelo emprego de fios duplos, como os segmentados e altamente
eficientes Arcos-base, ou Utilidade. Seu enfoque de ação seletiva em campos
específicos das arcadas dentárias, que podem ser abordados de maneira
independente e subordinados a uma estratégia terapêutica progressiva, aliado a
um inestimável instrumento de avaliação prévia de resultados, no que vem a se
constituir o VTO –visualização dos objetivos terapêuticos- , torna suprema esta
técnica na arte ortodôntica, dotando o profissional que a domina de grande visão
e segurança. E a terceira, aquela técnica que mais de perto faz defrontar o
ortodontista com aquela ciência que lhe dá suporte, a Física, que se constitui
na Mecânica dos Arcos Segmentados de Burstone, em que a fiação
ortodôntica é executada segundo princípios que permitem antever com segurança os
resultados e prever com clareza as indefectíveis seqüelas ou conseqüências,
anulando-as ou delas tirando proveito, pois em Ortodontia como na Física, não há
força impune, pois sabemos que a toda ação corresponde uma reação igual e
sentido contrário, como ensina a terceira Lei de Newton. De posse desses
instrumentos, não há o que possa se constituir em problema de resolução
dento-alveolar, e mesmo alguns casos esqueletais selecionados, excetuando-se
obviamente as displasias ósseas exacerbadas que exigem o concurso da Cirurgia
Ortognática. Porém, há o perigo de que estes conhecimentos, evidentemente
valiosos e indispensáveis, gerem um esvaziamento no espaço reservado ao estudo
do sistema biológico e suas interações.
O modelo
funcionalista, por outro lado, busca na imersão interpretativa dos fenômenos
biológicos a resposta aos seus questionamentos, pois pertencem a outra categoria
de necessidades, ou de consciência. Como busca a compreensão do ser vivo e seu
intercâmbio com o ambiente, individualiza o sistema estomatognático como um
sistema aberto, porém, de controle fechado, como explica a Teoria Geral dos
Sistemas, área do conhecimento que se ocupa dos sistemas de controle das
máquinas e seres vivos, pois se submetem a mecanismos regulatórios de princípios
comuns.
Não basta
aceitar a idéia de que os modelos terapêuticos devam coexistir, felizmente uma
obviedade nos dias atuais. É preciso mais. É necessário conhecer de fato, e
clinicamente, o universo dessa coexistência, que é muitíssimo mais amplo do que
possa supor uma visão de amador. Há que amadurecer. Com rápidas pinceladas,
precisamos saber que a ação terapêutica dos aparelhos ortopédicos funcionais vai
atuar em áreas específicas em que apenas eles têm trânsito, e portanto, ter
consciência de quais áreas estamos nos referindo. Neste ponto reside um dos
grandes problemas, como se os modelos estivessem separados em universos
paralelos.
A ação
funcionalista exige a ação indireta e intermitente, e ela será tão mais efetiva
quanto maior for o conhecimento da permissibilidade auto-reguladora do sistema,
pois este está permanentemente à procura da homeostase, como resposta às
aferências informativas. Em outras palavras, os estímulos gerados pela
aparatologia vêm de certa forma desequilibrar o sistema de forças presente,
fazendo com que este desenvolva um conjunto de respostas, ou eferências
reequilibradoras, com a finalidade de adaptar-se às novas solicitações.
Estas
intercomunicações entre o ser e o ambiente, ou sistema estomatognático/aparelho,
acontecem via canal específico, o analisador, compreendido por um sensor, ou
receptor, cuja função é captar e proceder à transdução das informações, ou
estímulos, em sinais elétricos conduzidos pelo condutor, ou neurônio aferente,
às terminações nervosas corticais que vão decodificá-las. As vias de aporte das
informações dependem da área de recepção, assim as externas são representadas
pelos exteroceptores, as do meio interno ou sistema vegetativo pelos
interoceptores e os da vida de relação pelos proprioceptores. Uma vez elaborada
a resposta, ou eferência, dirigida ao órgão efetor, que tanto pode ser uma
contração ou estiramento muscular, acionado pela placa motora, ou então um
estímulo humoral para gerar uma secreção, esta alteração no meio promove uma
resposta para sinalizar se a troca de informações criou um estado propício à
consecução de determinada tarefa ou não, isto é, uma avaliação do mecanismo
homeostático representado pela aferência de retorno, uma retroalimentação ou
feedback, que corporifica um sistema de regulação do tipo fechado, que
explica de maneira clara os mecanismos adaptativos de uma respiração bucal, por
exemplo, conseqüência de uma estenose maxilo-mandibular acompanhada de um
desequilíbrio sagital de bases ósseas, com diminuição do espaço orofaríngeo,
gerando compensação postural crânio-cervical. São exatamente as aferências de
retorno que acionam os mecanismos efetores compensatórios, entrelaçando o
sistema estomatognático ao respiratório, muscular, articular, digestório,
postural e outros, que a limitação do texto impede abordar. E é no conhecimento
e possibilidade de atuar em arborização sistêmica mais ampla que reside o
diferencial dos modelos terapêuticos em pauta. Poderíamos sintetizar que, a
Ortodontia tem seu campo de ação no binômio dento-alveolar, e as técnicas
ortopédicas funcionais no músculo-esqueletal, e estamos absolutamente convictos
de que uma abordagem só será completa quando houver consciência da plena
simbiose entre os modelos mecanicista e funcionalista vistos sob a ótica da
Reabilitação Neuro Oclusal.
A
incompatibilidade só pode estar presente na visão ingênua, e se guerra entre os
modelos houver, fratricida em sua essência, só pode ser por culpa da inocência
dos litigantes, pois embora os enfoques possam parecer díspares, nada mais fazem
que gerar a síntese dos contrários, pois ambos fazem parte de uma mesma unidade
dialética.
Há que
estudar profundamente tais modelos, tomar posse e consciência da enorme riqueza
técnica que tal somatória de conhecimentos permite, e pairar acima de discussões
frívolas e sectárias que não condizem com o espírito científico. O antídoto
para tal perigo está na figura do Educador, pois sob sua responsabilidade está a
de apontar caminhos, dar suporte a uma visão crítica diferenciada e estimular
pesquisas, pois dentro da inquietação do espírito que dogmas são derrubados e
barreiras virtuais transpostas, daí emergindo o Especialista completo.
Àqueles que
se dispuserem a ampliar o leque de informações, acena-se com a possibilidade de
exercer a liberdade plena de poder optar! |